Imagem

Você Não Passa de Um Dia

by Armindo lobato

ERAM quase onze horas quando fui dordoentemir. Tenho dificuldade de dormir porque meu sistema necessita de pelo menos uma hora para se acalmar. O plano era começar o dia seguinte dormindo e esquecer do mundo. Não consegui meu objetivo. Acordei às sete horas da manhã.

          Um pensamento corria em minha mente antes de eu dormir, que com certeza ocupou mais espaço do que deveria. Também não poderia ser diferente, qualquer ser humano agiria como eu agi. Aquela frase que o doutor falara com tanta convicção, confesso que a duvidei. Ele percebeu minha dúvida. De fato, suas palavras foram muito fortes e me pegaram desprevenido. E como eu me conheço, e ele também a mim há bastante tempo, aceitei o desafio, porque gosto de ser desafiado.

“Você não passa de um dia…” Essas foram as suas palavras. Hoje reconheço que não deveria duvidar. Ele é médico, intelectual reconhecido e domina amplamente aquilo que faz. Simplesmente me desgastei lutando contra uma doença incurável, e se ainda vivo, isso é um mistério muito grande para mim.

Levantei-me nessa manhã objetivado em desviar todo e qualquer pensamento a uma positividade ao meu cotidiano, para de alguma forma não agravar minha doença. Tudo era calculado, visando o bem somente. Escovei os dentes mirando minha face no espelho, como se esta fosse a primeira vez que a vira. Isto, contudo, não foi suficiente para omitir uma particularidade conhecida de há muito tempo: o meu cinismo. Acredite-me, por muito tempo vivi cinicamente. Sim, diria até que conscientemente enganado e me enganando.

Existia uma lutar interior que me agonizava, embora eu não desse tanta relevância a ela, pois me vinha em forma de dias tristes, mau humor e desilusão da vida, mas me conformava em entender que todo ser humano passava por isso, e como uma gripe, em poucos dias era pacificada, ou pelo espírito observador da lei de Deus, ou até mesmo pelo cinismo revestido de sinceras ponderações, que me convenciam de que o homem cresce e muda, as coisas mudam, e eu estava crescendo e mudando.

Quando estamos escovando os dentes, olhamos para nós mesmos, especialmente o nosso rosto. E ali estava eu no exercício continuo do vai e vem da escova, que não era poderoso para impedir que flashes rápidos e quase obscuros passeavam nos meus neurônios, na tentativa de ligar meu consciente com minha doença. Mas eu lutava isso desviando minha atenção para qualquer coisa que meus olhos viam ali naquele espelho. Mas não foi fácil, a mente não dá descanso e teima repassar as coisas que nos chocam.

Precisava pensar positivamente. Não deveria ofender minha integridade espiritual e carnal. Cada minuto que se passava era uma verdadeira prova à minha capacidade de escravizar meus pensamentos a uma atitude positiva que me permitisse pelo menos durar mais de um dia.

Quando se atenta com esmero para o que se faz, o resultado findará em algo positivo. Eu acreditei nisso. Eu queria vencer. Pessoalmente me vesti dessa coragem e queria a todo custo mudar a situação.

Tomei café, orei calmo falando compassadamente as palavras para que minha mente não divagasse e minha oração soasse honestidade de coração. Arrumei tudo e estava pronto para trabalhar.

Sentado em meu carro, poderei se trabalhar hoje seria prudente, pois poderia agravar ainda mais minha doença, enquanto que ficar em casa teria um tempo maior para refletir em tudo. Até este momento ninguém sabia o que se passava comigo. Nem mesmo minha esposa que tanto se preocupava com minha saúde sabia.  Tenho amigos que compartilham a ideia de ocultar do conjugue coisas que são necessárias.
Pessoalmente não concordo, mas caminhava nessa trilha. Eles dizem como se fala no futebol: Em time que está ganhando, não se mexe. Eu confiava plenamente em minha capacidade de ser curado sem incomodar ninguém.

Saí do carro somente com um objetivo: dormir. Entrei no quarto e logo comecei tirar minha roupa escravizando meus pensamentos aos atos que fazia. Nada de rotina poderia acontecer, sob o risco de desviar minha atenção a fleches que poderiam agravar minha doença. Mas a casa estava em silêncio, e parece que no silêncio a mente fala bem alto.

Foram milésimos de segundos. Meus filhos ainda dormiam o sono matutino e minha cama parecia continuar quente, com uma visão espetacular de minha esposa deitada com os seios semi descobertos. Nos instantes que a olhei, rápidos e súbitos pensamentos se apoderaram de mim, e então gritei um “não” esmurrando minha cabeça como se estivesse querendo traspassá-la com uma arma mortífera. Meus olhos lacrimejaram e chorei feito criança. O seios de minha secretária, que impiamente contemplara em meu escritório, fora minha desgraça. E imediatamente ecoou em minha mente: Qualquer um que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela.

O Médico dos médicos tinha razão em dizer: “Você não passa de um dia”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s